Quase sesquicentenária, ela atende pelo codinome de princesa. Bonita e festeira, tem corpo de veias largas e espaçosas, por onde trafegam gentes, bichos e toda sorte de veículos, motorizados ou não. Erguida às margens do Rio Paraíba – que quase nunca é rio, mas leito esperançoso –, ela foi traçada pelas mãos de fazendeiros de gado e ganhou corpo com a ação de plantadores de algodão e sisal, comerciantes, criadores de ovelhas e cabras, trabalhadores autônomos, rendeiras, funcionários públicos, artistas e estudantes.

Essa senhora, que no dia 28 de junho completou 143 anos, é a cidade de Monteiro, pequena e poética urbe do Cariri paraibano. O nome, antes de se referir a algum acidente topográfico ou aos antigos guardas das matas portuguesas, é uma homenagem ao seu fundador, Manoel Monteiro do Nascimento, que ali fincou seus mourões, em finais do século XVIII. De povoado a vila, de vila a distrito e daí a município, em 1872.

De Manoel Monteiro, a cidade herdou o nome e a devoção a Nossa Senhora das Dores. Nada mais. Não se sabe, depois disso, para onde ele foi, e por que foi. Não se sabe se deixou descendentes. Também não há vestígios da casa onde viveu – nem mesmo a capelinha dedicada à Virgem, a partir da qual teve início a devoção que consagrou a santa como padroeira do município, sobreviveu ao tempo.

Hoje, Monteiro se espicha, a passos largos, por terras que há pouco tempo eram roçados e pastos. Universidade, ovinocaprinocultura, Instituto Federal, artistas ligados ao forró, órgãos federais, comércio diversificado – a cidade cresce. Pelos lados e também para cima, com “puxadinhos” verticais que destoam no cenário onde antes se via um belo e harmonioso conjunto arquitetônico.

O centro da cidade, até os anos 1990, era tomado por casas de planta baixa, com portas e janelas abertas para as ruas, fachadas azulejadas e calçadas convidativas. Construídas entre o século XIX e meados do século XX, essas casas, aos poucos, vêm sendo demolidas para dar lugar a projetos sem personalidade, cobertos de cerâmica e desnudos de estilo.

Como chamar de princesa uma cidade que não preserva a sua história? Princesa é um título nobre, e nobreza tem tudo a ver com tradição. Ao perder sua memória arquitetônica, a princesa fica cada dia mais plebeia. Com o tempo, e o desprezo dos seus, a Monteiro que mantinha o seu casario preservado perde os ares de alteza. Uma pena. Crescer não deveria ser sinônimo de apagar o passado, e desenvolvimento não deveria rimar com amnésia cultural.

Imagine como a humanidade teria perdido se ainda hoje não pudesse admirar, pessoalmente, monumentos como as pirâmides do Egito e a Acrópole de Atenas, na Grécia; sítios arqueológicos como o de Angkor, no Camboja; ou cidadelas como a inca Machu Picchu, no Peru? Ou, falando especificamente de cidades vivas, onde as pessoas moram, trabalham, estudam ou apenas visitam, imagine como ficariam sem graça os passeios pelas cidades europeias se os europeus não tivessem preservado seus centros históricos e suas cidades muradas? E nem precisamos nos afastar tanto, basta ir a Olinda, Ouro Preto, Paraty, Tiradentes, Petrópolis… Aqui mesmo, no Brasil, vemos exemplos de cidades que mantiveram seus cascos históricos preservados e continuaram crescendo e se desenvolvendo, apesar de tudo!

Bons exemplos devem ser seguidos, sempre. Nenhum país ou cidade deixou de se desenvolver ao conservar seus prédios, ruas, praças e monumentos. O passado faz parte do presente e nos orienta em relação ao futuro.

Monteiro cresce, e isso é bom. O que entristece é que, quanto maior, mais desmemoriada ela fica. Pobre princesa…